Pasto substitui grande extensão de floresta primária intacta em área protegida brasileira

  • Satélites detectaram desmatamento na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu este ano, uma área legalmente protegida da floresta amazônica brasileira.
  • Apesar de seu status, 35% da floresta primária (ou antiga) dentro da APA foi perdida entre 2006 e 2021, tornando-a uma das fatias mais desmatadas da Amazônia brasileira.
  • A APA foi criada em 2006 para servir de amortecedor para áreas vulneráveis ​​do entorno, como a Terra Indígena Apyterewa e a gigantesca Estação Ecológica Terra do Meio, mas o desmatamento tem se espalhado por ambas.
  • O desmatamento na região é em grande parte impulsionado pela pecuária, mas a grilagem de terras e a mineração também aumentaram nos últimos anos, com invasores encorajados pela retórica e pelas políticas do atual governo.

Satélites detectaram desmatamento em Triunfo do Xingu este ano, uma área que deveria ser uma faixa legalmente protegida da floresta amazônica no estado do Pará, no norte do Brasil.

Lar de onças, bugios, margays raros e uma fonte de outras diversidades, a área protegida foi criada em 2006 como uma reserva de uso sustentável, o que significa que dentro de seus limites (uma área com mais da metade do tamanho da Bélgica) os proprietários de terras são legalmente obrigados para manter 80% de suas florestas intactas.

No entanto, apesar dessa exigência, 35% da floresta primária (ou antiga) dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu foi perdida entre 2006 e 2021 – mais de 533 mil hectares (1,32 milhão de acres), segundo dados de satélite da Universidade de Maryland (UMD), visualizado no Observação Florestal Global plataforma.

Isso faz da APA Triunfo do Xingu uma das porções mais desmatadas da Amazônia brasileira nos últimos anos, colocando-a entre as três maiores lista das reservas protegidas mais desmatadas.

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As imagens de satélite mostram caprendizagem da floresta tropical primária dentro do Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu em 2022. Imagem de abril de 2022, Planet Labs Inc.

A maior quantidade de perda florestal desde a criação da área protegida ocorreu em 2020, com quase 70.000 hectares (173.000 acres) – uma área quase do tamanho da cidade de Nova York. Embora o desmatamento tenha diminuído em 2021, a perda naquele ano ainda foi quase o dobro da taxa média entre 2002 e 2021.

O desmatamento na região é em grande parte impulsionado pela pecuária, de acordo com relatórios anteriores em 2020. Na Amazônia, agricultores e pecuaristas usam técnicas de corte e queima para limpar a floresta para pastagem. No município de São Flix do Xingu, onde fica a área protegida, há quase 20 vezes mais gado do que pessoas.

“A APA Triunfo do Xingu foi criada para permitir algum tipo de atividade humana de forma sustentável”, disse Larissa Amorim, pesquisadora do Imazon, uma ONG que monitora o desmatamento da floresta, à Mongabay em 2021. “Mas vemos que não é sustentável de forma alguma. E as atividades ilegais que estão acontecendo lá acabam se espalhando para além dela.”

A Estação Ecológica Terra do Meio, próxima à Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, abriga margays (Leopardus wiedii), pequenos felinos nativos da América do Sul e Central.  Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.
A Estação Ecológica Terra do Meio, próxima à Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, abriga margays (Leopardus wiedii), pequenos felinos nativos da América do Sul e Central. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.
A região do Xingu abriga uma grande variedade de animais, como os gambás lanudos de cauda nua (Caluromys philander). Imagem de Moisés Silva Lima via Wikimedia Commons (CC BY SA 2.0)

A APA Triunfo do Xingu foi projetada para proteger a vida selvagem e serve de amortecedor para áreas vulneráveis ​​do entorno, como a Terra Indígena Apyterewa e a gigantesca Estação Ecológica Terra do Meio, mas o desmatamento tem se espalhado.

“[The Terra do Meio Ecological Station] deve ser completamente preservado”, disse Rômulo Batista, ativista do Greenpeace Brasil, à Mongabay em 2021. “ Deve haver desmatamento zero lá. Mas, em vez disso, estamos vendo uma destruição florestal desenfreada, o que é realmente preocupante.”

Imagens de satélite do Planet Labs capturadas em outubro de 2021 mostram a expansão de clareiras na floresta ao redor da Estação Ecológica Terra do Meio em 2021.

A perda de floresta também invadiu o Território Indígena Apyterewa, a nordeste, disseram fontes locais à Mongabay. E a sudeste, a floresta está sendo derrubada no Território Indígena Kayapó, “algo que nunca vimos antes”, disse Francisco Fonseca, da The Nature Conservancy, à Mongabay em 2020.

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“Com esse enfraquecimento [Triunfo do Xingu], ficou mais fácil chegar aos parques de conservação, além dos territórios indígenas. Em última análise, acabou não se tornando o buffer que deveria se tornar. ”

Embora a pecuária continue sendo a principal culpada pela perda de florestas, a região também emergiu como um centro de grilagem de terras e mineração ilegal por invasores que apostam no afrouxamento contínuo das regulamentações e fiscalização ambiental.

“Vimos uma onda de grilagem de terras”, disse Fonseca. “O padrão mudou – muitas dessas aberturas são agora apenas para especulação, não para plantio ou pastagens.”

Área queimada na APA Triunfo do Xingu em 2019. Foto tirada em setembro de 2019 por Ana Ionova para Mongabay.

Especialistas dizem que grileiros, aqueles que se mudam para uma área e desmatam a floresta para reivindicar sua reivindicação, foram encorajados pela retórica e pelas políticas do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Nos últimos anos, o governo concedeu anistias a especuladores de terra que invadiram unidades de conservação e, muitas vezes, usam o fogo para derrubar florestas em terras públicas para terras agrícolas privadas.

Proteger Triunfo do Xingu do desmatamento ilegal e das queimadas provou ser um desafio extra porque é remoto e acessível principalmente por barco a partir da cidade de São Flix do Xingu. O monitoramento local, o controle e a capacidade de processar aqueles que desmatam e ateiam incêndios ilegais foram limitados em todo o Brasil, já que agências governamentais e policiais que antes operavam na Amazônia foram amplamente desfinanciados sob a atual administração. Bolsonaro também atribuiu os incêndios aos povos indígenas e tradicionais.

Floresta verdejante envolve as margens do Rio Novo na Estação Ecológica Terra do Meio.  Imagem por Exlibris via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Rio Novo na Estação Ecológica Terra do Meio. Imagem por Exlibris via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Em 2021, 3,75 milhões de hectares (9,27 milhões de acres) de floresta tropical primária foram perdidos em todo o planeta, uma taxa de cerca de 10 campos de futebol por minuto. Mais de 40% dessa perda de floresta primária ocorreu no ano passado no Brasil, de acordo com a Global Forest Watch.

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“O principal fator é a total falta de política ambiental deste governo”, disse Batista, ativista do Greenpeace Brasil. “As pessoas que estão dispostas a invadir estão se sentindo encorajadas.

“São regiões de maior importância ecológica e que devem ser protegidas para garantir a integridade da floresta tropical como um todo”, acrescentou Batista. “E é isso que estamos perdendo com esse aumento no desmatamento.”

Liz Kimbrough é redator da equipe da Mongabay. Encontre-a no Twitter @lizkimbrough_

Nota do editor: Esta história foi alimentada por Lugares para assistir, uma iniciativa do Global Forest Watch (GFW) projetada para identificar rapidamente a perda de florestas em todo o mundo e catalisar uma investigação mais aprofundada dessas áreas. O Places to Watch baseia-se em uma combinação de dados de satélite quase em tempo real, algoritmos automatizados e inteligência de campo para identificar novas áreas mensalmente. Em parceria com a Mongabay, a GFW está apoiando o jornalismo orientado por dados, fornecendo dados e mapas gerados pelo Places to Watch. Mongabay mantém total independência editorial sobre as histórias relatadas usando esses dados.

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